quinta-feira, 28 de junho de 2007

O VELHO ANJO

O arcanjo lhe deu a ordem: no final do quarto mês do sétimo ano, corte o cordão.
Anjo velho, meio chateado com aqueles milhares de anos de vida, resolveu ensimesmar. Deu pra bater asas por aí. Gostava de observar os erros de imberbes querubins. Vez por outra tropeçava nas barbas de algum santo, tonto, de tantos pedidos da turma da terra. Por se tratar de uma sumidade entre os assexuados, não sofria com a fiscalização. Sem os cuidados do velho anjo, Rojão seguia a esmo, quase santo entre a rapaziada. A bala perdida, quando tinha 17 anos, desviou no piercing do nariz. O tijolo caído do andaime resvalou na tábua conduzida pelo peão que esquecera o cigarro. O carro desgovernado mudou de rumo na tartaruga arrancada pelo desajeitado tratorista. O pitbull já havia pulado em direção a sua garganta, quando o fio de alta tensão se rompeu, após o curto circuito provocado pela vassoura caída do décimo andar. Num lapso de cumpridor de seus afazeres, o velho anjo lembrou da tarefa. Soprava entre tossidas cansadas as velinhas de seu octogésimo bolo quando, como que num vôo leve de uma folha de outono, seu corpo murcho encontrou sem alma, o chão que lhe daria a última morada.

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