quinta-feira, 26 de julho de 2007

O mais que perfeito

(Homenagem à Liz)
É pretérito
Passado
Trás o verbo
Em rédeas curtas

Ada eda ida
A flexão permitida

Por ser regrado
É olhado meio de lado
Até mesmo descriminado

Não anda na boca de todos
É mais íntimo dos letrados
Que o usam à exaustão

Mas é puro despeito
De quem não é afeito
Á verbo lustrado

Pois por ser mais que perfeito
Dá brilho ao sujeito
Aos pronomes e adjetivos
Encurta frases
Dispensa artigos

É um belo amigo
Quisera
Queira.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Augusto e Anjos

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!
(Augusto dos Anjos)

Lembro-me de Augusto
Nos devaneios
Nos dias novelos
Em que não os teço
Nem os desenrolo

De anjos no entanto
Nos percalços
Em que descalço
Tenho medo

No pútrido da vida
Anjos e Augusto
Na dor sentida
Encaixe justo

Na alegria os esqueço
A alegria é carro sem freio
Copo cheio
Desmedida

Ambos me consolam
Nos dias de solo
No grito de ajuda
Na paz da coxia

De mamãe o gosto por anjos
Dos dissabores por Augusto
São dois amores
Um Herdado outro adquirido

Torcem o nariz
Para os dois
Recebo-os
Ora pois.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Cumprindo

Jaleco surrado
Apertado no lotação
Mão direita no ferro
Olhos cravados no chão

A chuva batendo no vidro
Escorre em ziguezague
Pelas ladeiras do subúrbio
Sacode feito enxágüe

Suporta artrite gota catarro
Verão inverno gracinha assalto
É árvore de ribanceira
Arcado pro abismo copa para o alto

Não se rendera aos percalços
Nem teve tempo para vício
Ganhar o pão os panos o aluguel
Ver na gurizada a alegria de seu sacrifício

Até seu semblante é honesto
Sua conduta irrepreensível
Fizera da vida o que sonhara
Sonhara um sonho plausível.

Rosado ( O leitão)

Nasceu entre outros doze, rosado e se destacando por suas orelhas caídas.
Agora já não se destaca, nem se pode saber exatamente qual parte de seu corpo foi abocanhada. Continua rosado.

Ao Che (nano conto)

Ao sentir o projeto perfurar-lhe a omoplata esquerda e o coração, lembrou-se da frase do Che ¨hai que endurecerse pero sin perder la ternura jamas¨.

Todos cismavam com aquele sorriso estampado em seu rosto.

sábado, 7 de julho de 2007

Meu jeito

Hoje corri pelado e contente,
Índio jovem no kuarup, virando gente.
Apanhei inocente, como os negros no pelourinho.
Debutei inocente como as donzelas
Do início do século passado.

Plantei açúcar e café. Achei ouro e fui roubado.
Construí igrejas, estradas, ferrovias, rodovias e,
Tudo mais que mandaram.

Tornei-me independente, inseguro, imaturo,
Enchi-me de gente: atraente, incompetente,
Indigente, decente, inteligente, arrogante,
Corrupta, crente, amável, carente, impotente,
(in) conseqüente, diferente, honesta, confiável,
Intragável, ingênua, bola-pra-frente.

Batizei-me em todas as crenças,
Abri-me para todos os povos.
Taxaram-me de pobre, subdesenvolvido,
Em desenvolvimento, tecnodependente.
Chamaram-me de futuro, de pulmão do mundo,
De terra de Deus.

Muitos acreditam que tenho jeito.
Outros, que não passo de um pesadelo.
Meu nome vem da brasa, deve ser por isso então,
Que tanto me incendeiam.